Operação envolve a aquisição de 73,01% da Desktop pela Claro NXT e foi analisada em diferentes mercados de telecomunicações, incluindo banda larga fixa, infraestrutura de rede, comunicação por voz e conteúdo
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O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) concluiu pela aprovação sem restrições da aquisição do controle da Desktop pela Claro NXT Telecomunicações S.A., em uma decisão que representa mais um capítulo importante do processo de consolidação do mercado brasileiro de telecomunicações.
De acordo com o Parecer nº 18/2026/CGAA4/SGA1/SG/Cade, a operação envolve a aquisição de 84.684.273 ações ordinárias, equivalentes a aproximadamente 73,01% do capital social da Desktop, atualmente pertencentes ao fundo Makalu Brasil Partners e a acionistas pessoas físicas. Com a operação, a Claro NXT passa a assumir o controle da empresa e de suas atividades.
Desktop atua em 198 municípios
A Desktop é apresentada pelo Cade como uma empresa brasileira de telecomunicações que atua principalmente como provedora de internet banda larga por fibra óptica, com presença em 198 municípios do estado de São Paulo, segundo dados da Anatel de dezembro de 2025.
Já a Claro possui atuação nacional em diversos segmentos, incluindo banda larga fixa, telefonia fixa e móvel e TV por assinatura. O grupo controlador da Claro, a América Móvil, registrou faturamento de aproximadamente R$ 50,8 bilhões no Brasil em 2024.
Por que a operação chamou a atenção do Cade?
A análise foi mais ampla do que uma simples avaliação da participação das empresas no mercado de internet.
O Cade examinou possíveis efeitos da operação em quatro mercados com sobreposição horizontal:
- Banda larga fixa para acesso à internet;
- Oferta atacadista de elementos de infraestrutura de rede de telecomunicações;
- Serviços de comunicação por voz;
- Oferta híbrida de conteúdo.
Também foram avaliadas possíveis integrações verticais entre infraestrutura de rede e banda larga fixa.
A investigação contou ainda com um amplo teste de mercado, realizado junto a dezenas de empresas do setor, além de associações e entidades representativas, incluindo Abrint, Abranet, Telcomp, Neo, Telebrasil e Conexis Brasil.
Fibra óptica já representa 80,7% dos acessos
Um dos pontos mais relevantes do parecer está relacionado à transformação tecnológica do mercado brasileiro.
Segundo os dados da Anatel utilizados pelo Cade, em julho de 2026 a fibra óptica representava 80,7% dos acessos de banda larga fixa no Brasil.
O crescimento foi expressivo: em janeiro de 2020, a fibra representava 32,4% dos acessos. No mesmo período, as conexões por cabo metálico e cabo coaxial perderam participação significativamente.
Para o Cade, essa transformação é importante também para compreender a estratégia da operação.
A Claro argumentou que a aquisição permitirá ampliar sua competitividade em São Paulo, substituindo parte dos acessos baseados em tecnologia HFC por fibra óptica, com potencial redução de latência, aumento de velocidade e melhoria da qualidade do serviço.
O parecer também registra que a migração para redes GPON pode representar vantagens operacionais para a Claro, inclusive pela possibilidade de redução de custos de operação.
Mercado de ISPs foi considerado competitivo
Um dos principais pontos da análise do Cade é a avaliação da capacidade de concorrentes regionais e nacionais de disputar clientes mesmo diante da concentração resultante da operação.
O órgão identificou situações em que empresas menores possuem participação relevante localmente, enquanto grandes operadoras apresentam participação reduzida.
Em alguns municípios analisados, por exemplo, havia diversos provedores com infraestrutura própria de backhaul, além da Claro e da Desktop. Em Atibaia, o levantamento identificou 18 prestadoras com backhaul, além das duas empresas envolvidas na operação.
Para o Cade, isso demonstra que a concorrência no mercado de banda larga fixa não depende exclusivamente das grandes operadoras.
Os provedores regionais continuam desempenhando papel importante na competição local.
Infraestrutura compartilhada também pesa na decisão
Outro fator considerado pelo Cade foi a possibilidade de contratação e compartilhamento de infraestrutura.
O parecer destaca que, apesar dos investimentos necessários para implantação de redes, existem acordos de compartilhamento que permitem que empresas utilizem infraestrutura de terceiros.
O órgão também identificou disponibilidade de backbone e backhaul, capacidade ociosa e atuação verticalizada de diversos agentes.
Com esse conjunto de fatores, o Cade concluiu que não havia capacidade concreta de fechamento dos mercados verticalmente relacionados como consequência da operação.
Comunicação por voz também foi analisada
A operação também produz sobreposição no mercado de comunicação por voz.
O Cade considerou em conjunto os serviços de telefonia fixa, telefonia móvel e banda larga fixa utilizada como suporte para VoIP.
A análise identificou sobreposição nos 645 municípios do estado de São Paulo, mas concluiu que a probabilidade de exercício unilateral de poder de mercado permanece reduzida.
Em 533 municípios, as preocupações concorrenciais puderam ser afastadas diretamente pelos critérios previstos na regulamentação do Cade. Nos outros 112 municípios analisados de forma mais aprofundada, o órgão também identificou condições suficientes de rivalidade e contestabilidade.
Streaming muda análise de TV por assinatura
O Cade também atualizou sua visão sobre o mercado de conteúdo.
Em vez de analisar exclusivamente a TV por assinatura tradicional, o parecer considera um mercado de oferta híbrida de conteúdo, incorporando também as plataformas de streaming.
Segundo os dados utilizados no processo, as plataformas de streaming representam aproximadamente 90% dos acessos estimados nesse mercado, enquanto a participação da Claro seria de cerca de 5% e a da Desktop seria considerada de minimis.
Por isso, não foram identificadas preocupações concorrenciais relevantes nesse segmento.
O que essa decisão representa para os ISPs?
A aprovação da operação é importante não apenas para Claro e Desktop.
Ela também traz uma mensagem para todo o ecossistema de provedores de internet:
a consolidação continua, mas o Cade reconhece que existe rivalidade suficiente entre grandes operadoras, provedores regionais e novos entrantes para preservar a competição em grande parte do mercado.
Para os ISPs, o cenário reforça a importância de:
Escala
Ganhar eficiência e diluir custos de infraestrutura.
Qualidade de rede
A fibra óptica se consolidou como principal tecnologia de acesso.
Eficiência operacional
A competição passa cada vez mais por OPEX, experiência do cliente e capacidade de investimento.
Infraestrutura
Backbone, backhaul e redes de acesso continuam sendo ativos estratégicos.
Diferenciação local
Provedores regionais demonstram capacidade de competir mesmo diante de grandes grupos nacionais.
Um novo capítulo na consolidação do mercado
A aquisição da Desktop pela Claro acontece em um momento em que o mercado brasileiro de telecomunicações passa por intensa transformação.
De um lado, grandes grupos buscam escala, sinergias e expansão de suas redes. De outro, os provedores regionais continuam ocupando um espaço importante na competição municipal.
O próprio Cade reconheceu que a rivalidade pode ser tanto efetiva quanto potencial, especialmente quando empresas já possuem parte da infraestrutura necessária ou podem utilizar acordos de compartilhamento para expandir suas operações.
Para o mercado de telecom, a mensagem é clara: a consolidação não elimina a competição — mas aumenta a necessidade de eficiência, investimento e capacidade de diferenciação.
Decisão final
Após analisar as sobreposições horizontais, as possíveis integrações verticais, as condições de entrada, a rivalidade existente e os dados coletados no mercado, a Superintendência-Geral do Cade concluiu pela aprovação sem restrições da operação.
O parecer registra expressamente que a operação foi aprovada nos termos da Lei nº 12.529/2011 e do Regimento Interno do Cade.
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Claro + Desktop: uma operação que reforça a consolidação do mercado paulista e coloca novamente os provedores regionais no centro da discussão sobre concorrência, infraestrutura e futuro da banda larga no Brasil.
